Eu já estava nas ruas havia algum tempo, meio sem destino, e
já tinha me acostumado a ver as pessoas fugindo de mim, algumas me jogavam
pedras para que eu me afastasse, e cachorrinhos esnobes passeando na coleira com
seus donos, cheios de si, me provocando à distância. Eu não ligava muito,
afinal, eu é que tinha escolhido essa vida... Já não me parecia tão boa, mas o
que é que eu ia fazer?
Foi então que uma noite veio aquele cãozinho idiota. Já
fazia alguns dias que ele passava por mim me provocando, mas aquela noite eu não
ia deixar barato. Esperei na esquina, eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele
iria passar por ali. E quando ele passou por mim, me provocando, eu ataquei. Ele
era muito menor, mas valente, e tentou se defender. Eu ia acabar com ele ali
mesmo, quem ele pensava que era, me provocando assim, todos os dias, me
xingando, achando que era o dono da rua? A rua era minha, e não dele, aquele
pequeno monte de pelos de coleira... Ah, foi uma briga das boas, mas o dono dele
estava lá, e logo encontrou um pedaço de pau para me bater e me afastar. Apanhei
muito, não teve jeito... Tive que fugir. Com o corpo todo dolorido, fui andando.
A noite estava boa, mas eu já nem sentia, estava cansado e dolorido. Queria
encontrar um canto. Mas algo me dizia que minha vida solitária estava por
terminar. Continuei vagando por aqueles quarteirões desertos até ver o dia
clarear. Sabia que o pequeno monte de pelos morava ali por perto, e portanto eu
não podia parar em qualquer lugar. Ele poderia me encontrar e se vingar enquanto
eu estivesse dormindo.
Então, avistei aquela casa. Estava com a garagem aberta, e
tinha um carro lá. O carro estava quietinho, achei que poderia ficar escondido
ali. O silêncio da casa dizia que todos dormiam. Resolvi entrar, mesmo sabendo
os riscos que corria. Deitei atrás do carro, e adormeci profundamente. Sonhei
com lugares lindos, campos verdes, uma mão gostosa me acariciando, senti
saudades da minha mamãe, aquela que primeiro me viu. Ela me amava, ela saberia
cuidar de mim... Droga, como eu me arrependi de ter fugido! Acordei com um homem
alto passando perto de mim. Levei o maior susto, achei que ele fosse me bater.
Rosnei o mais bravo que pude, mas acho que ele percebeu que eu estava mais
assustado do que bravo, e falou manso comigo. Ele chamou um monte de gente lá de
dentro da casa, e todo mundo foi me ver. Aí, ele tirou o carro, e eu vi que a
garagem era grande. Eles fecharam o portão. Será que eles iam me trancar, me
bater? Eu estava pronto a me defender a qualquer preço, custasse o que custasse.
Veio uma mulher, com cara de boazinha. Ela estava com medo,
pude ver em seus olhos. Mas mesmo assim chegou perto de mim, falou baixinho. Me
chamou, passou a mão na minha cabeça. E trouxe um prato, com leite e pão. Nossa,
como eu tinha saudades desse gosto. Era uma delícia. E depois veio outro prato.
Eram restos, como eu comia na rua, mas muito mais gostosos. Não eram como os
restos que eu costumava comer, com gosto meio azedo, que me davam dor de
barriga. Eles tinham gosto gostoso, sabor de verdade...
Comi tudo. Aí senti o cansaço bater mesmo. Fui me deitar no
fundo da garagem. Dessa vez, nem sonhei. Estava tão cansado, tão triste... Sabia
que mais cedo ou mais tarde teria que sair por aí, voltar à minha vida na rua. E
à noite, o portão ficou aberto para eu sair. E eu entendi que tinha que ir
embora. E fui.
Mas ainda estava machucado, então não fui longe. Andei um
pouco, mas a solidão veio, a tristeza e o medo, pela primeira vez, chegaram
perto de mim. E eu voltei para aquela casa. Quem sabe o portão ainda estivesse
aberto? Quem sabe eles me quisessem por lá?
Mas o portão estava fechado. Cansado, cheio de dores, dormi
ali mesmo, na frente do portão, vendo a casa lá dentro cheia de gente, felizes,
acho que já tinham me esquecido. Dormi, um sono profundo, pesado, sem
sonhos.
Acordei assustado, com pessoas falando alto perto de mim.
Será que estavam tentando me capturar? Será que eu ia ser pego? Me levantei
rápido, ainda meio atordoado de sono, procurando me defender.
Não era nada disso; o portão estava se abrindo. Eram as
crianças, pratinho com leite e pão. Café da manhã!!! Era sorte demais para um
cachorro como eu. Uma mão pequena em mim, me afagando, delícias que eu não
conhecia...
Nesse dia, fiquei dentro do portão, com as crianças sempre
me visitando, passando a mão em mim. Traziam comida, e viram que eu estava
machucado. Trouxeram um homem grande de branco para me ver. Fiquei com muito
medo. O Mike já tinha me avisado que o Homem de Branco é aquele que leva a gente
embora e nunca mais traz de volta. Fiquei ressabiado. Ele pôs a mão em mim, me
examinou inteirinho, falou muito com as pessoas do portão. Eles saíram, mas
voltaram com umas coisas para passar nos meus machucados. Doíam, mas eu nem
podia reclamar. Eles pareciam tão bons, acho que não iam me maltratar. Ainda
essa noite o portão ficou aberto. Saí de novo, mas alguma coisa dentro do meu
peito me fez voltar. E dormi dentro do portão. Acho que alguma coisa ia
acontecer...
CAPÍTULO 3UMA FAMÍLIA,
ENFIM!
E o tempo passou. Aquela família me adotou de vez. Cuidaram
de mim, me trataram como um rei. Ganhei comida, carinho, conforto, nome! Agora
eu tinha um nome! Eu era o Lobo, o protetor da casa. Eu tinha um dever a
cumprir! Eu tinha que proteger a minha família. Agora eu tinha a Mamãe, o Papai,
o André, o Fábio, a Cecília. Eu tinha uma responsabilidade enorme, mas valia a
pena. Eu tinha carinho, amor, coisas que eu nunca tinha visto antes. Dormia
protegido, passeava pela casa.
Ganhei amigos, amigos diferentes, humanos, que adoram passar
a mão em mim, falar comigo, me acariciar. O Mike às vezes passa por aqui, fica
admirado da mudança. Ele já está velho, acho que logo vai embora. Ele nunca quis
fazer a troca que eu fiz.
Fiquei maior um pouquinho, claro, comendo bem, só podia
crescer mesmo. Meu pelo ficou maravilhoso, e aquele cãozinho idiota mora aqui
perto, e continua passando em frente da minha casa de vez em quando. Eu não
gosto nadinha dele, mas aqui ele não entra. E se tentar, ele vai ver
só!
Mas às vezes eu penso que não deveria ter raiva dele assim,
pois foi por causa dele que eu encontrei minha família, que eu vim parar
aqui...
Aqui eu tenho tudo o que eu já tinha ouvido falar em
histórias na rua, pratinhos cheios de comidinha, ração na hora certa, beijinhos
no fuço, escovação, às vezes dormir dentro de casa (só quando o Papai se
distrai, e a minha maior cúmplice para isso, a Cecília, deixa...). Biscoitos de
montão (rapaz, esses são gostosos mesmo, acho que eu poderia comer uma caixa
inteira deles), algumas frutas (eu não sou muito chegado, ainda bem que ninguém
me obriga a comer o que eu não gosto!), de vez em quando um leitinho aguado
(lembra daquele moço de branco, então, o nome dele é Tio André Veterinário – que
nome comprido, né, o meu é bem mais legal –, pois ele disse que eu só posso
tomar leite com bastante água, para não me deixar com dor de barriga), pão
(putz! Esse aí é bom demais!!!!), e sempre que as crianças deixam, a Mamãe me dá
alguma guloseima depois da janta. Mais que isso, eu vou passear todos os dias
(geralmente com o Papai) à noite. A única coisa que o Papai não entende é que eu
preciso andar logo, cheirar tudo, e ele fica me segurando com aquela corrente,
eu puxo mesmo! Quem sabe assim ele solta. Sabe que eu nunca perdi a minha veia
boêmia, e de vez em quando eu até tento escapar, mas não resisto, volto
sempre...
Aprendi um montão de coisas, principalmente que para viver
em casa a gente precisa ter algumas regras, como não pegar comida da mesa,
sentar para esperar a comida, a dar a patinha, deitar, sentar na cadeira...
Aprendi a mostrar direitinho para todos aqui em casa o que
eu quero; no começo foi difícil, eu falava, falava, e ninguém me entendia. Mas
aos poucos a gente foi entrando numa sintonia legal, e hoje, a gente se entende
às mil maravilhas.
Depois que eu me acomodei vivi ainda muitas aventuras,
aprontei umas poucas e boas, e vou contar todas para vocês.
Mas não agora. Agora eu tenho que tomar meu café da tarde. E
cochilar ao sol depois. E tirar uma soneca no sofá com a Mamãe. Quem sabe
amanhã...